Category: Prosas

  • Entre linhas: Clara.

    Clara aprendeu logo cedo que gente precisa guardar as coisas importantes em silêncio.

    Não por medo exatamente, mas porque algumas histórias parecem frágeis demais para o mundo lá fora. Como se, ao serem ditas, pudessem perder a forma que só existe por dentro.

    Clara é assim.

    Ou talvez ainda esteja aprendendo a ser.

    Por fora, a vida segue organizada, os dias têm lugar, os afetos têm nome, e tudo parece caber dentro do que é esperado.

    Mas existe um desvio.

    Um espaço que ela não se explica, onde mora algo que nunca chegou a existir por completo… e, ainda assim, nunca deixou de ser.

    É ali que esse amor vive.

    Um amor quase perfeito, porque nunca precisou enfrentar o peso do cotidiano.

    Quase realizado, porque ficou na beira, sem tempo de se desgastar, sem falhas suficientes para desaparecer.

    E talvez seja isso que mais a confunda.

    Porque não foi vivido o bastante para ter fim, mas foi sentido o suficiente para permanecer.

    Clara não saberia dizer quando começou.

    Talvez tenha nascido de um olhar que demorou mais do que deveria, ou de uma presença que deixou marcas onde não podia.

    O fato é que existe.

    Silencioso. Persistente. Guardado.

    Há dias em que ela acredita que entende tudo… o que deve preservar, o que não pode atravessar, o que é certo.

    Mas saber nunca foi o problema.

    O problema é sentir.

    É perceber que, mesmo escondido, esse sentimento ainda encontra espaço.

    Ainda respira.

    E Clara segue, entre o que construiu e o que, por um instante, imaginou construir diferente.

    Não existe resposta limpa para isso.

    Só esse lugar suspenso entre o que é vivido e o que insiste em permanecer.

    E, no fundo, talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar: que alguns amores não vêm para acontecer no mundo: vêm para habitar alguém.

    Silenciosamente.

    Profundamente.

    Como tudo aquilo que nunca se explica,

    mas nunca vai embora.

  • Prazer, José.

    Pais, filhos, irmãos, um José.

    Esse José não era apenas mais um.

    Quando eu trabalhava no escritório de advocacia, lidávamos com direito previdenciário. Por isso, minha chefe precisava ir ao INSS constantemente, o que a deixava ausente por longas horas.

    Em um desses dias, quase ao fim da tarde, o Sr. José veio fazer uma de suas visitas para saber sobre o andamento do seu processo.

    “Prazer!” – disse ele, com uma voz suave e forte que me capturou no exato momento.

    Como de costume, perguntei se queria água ou café, mas ele recusou.

    O Sr. José parecia preocupado com sua aposentadoria, que não saía. E como não estaria? Após 40 anos de trabalho árduo, tudo o que ele queria era o merecido descanso.

    Mas o Sr. José também buscava algo além de respostas: ele precisava conversar. Parecia um homem solitário, com a vida marcada no semblante.

    Em certo momento dessa conversa, que parecia não ter pausa, ele começou a chorar. Compartilhava sua história, e no desabafo talvez buscasse algum conforto.

    Contou-me que, aos 12 anos, começou a sofrer abusos de seu próprio pai e sempre se sentiu abandonado. Disse que isso ficou ainda mais evidente quando sua mãe fugiu, envergonhada pela situação.

    Ele falou sobre os prazeres que descobriu na vida, mas também sobre a solidão, muitas vezes enfrentada até de si mesmo.

    Contou-me sobre religiões, encontros e desencontros com a fé. Apesar de tudo que sofreu, recordou também pequenas conquistas, que, por menores que parecessem a ele, o fizeram sorrir por alguns instantes.

    E assim se passaram quase duas horas de conversa. Mesmo que eu quisesse, não saberia repetir a história do Sr. José. Ela é só dele, compartilhada comigo sabe-se lá por qual razão.

    Ao Sr. José, que possamos nos encontrar algum dia. Nem que seja por um segundo. E, sim, estarei disponível para outra conversa e, quem sabe, para um abraço que, naquele momento profissional, eu não pude lhe dar.

    Prazer, Sr. José.

    Foi um grande prazer!