Entre linhas: Clara.

Clara aprendeu logo cedo que gente precisa guardar as coisas importantes em silêncio.

Não por medo exatamente, mas porque algumas histórias parecem frágeis demais para o mundo lá fora. Como se, ao serem ditas, pudessem perder a forma que só existe por dentro.

Clara é assim.

Ou talvez ainda esteja aprendendo a ser.

Por fora, a vida segue organizada, os dias têm lugar, os afetos têm nome, e tudo parece caber dentro do que é esperado.

Mas existe um desvio.

Um espaço que ela não se explica, onde mora algo que nunca chegou a existir por completo… e, ainda assim, nunca deixou de ser.

É ali que esse amor vive.

Um amor quase perfeito, porque nunca precisou enfrentar o peso do cotidiano.

Quase realizado, porque ficou na beira, sem tempo de se desgastar, sem falhas suficientes para desaparecer.

E talvez seja isso que mais a confunda.

Porque não foi vivido o bastante para ter fim, mas foi sentido o suficiente para permanecer.

Clara não saberia dizer quando começou.

Talvez tenha nascido de um olhar que demorou mais do que deveria, ou de uma presença que deixou marcas onde não podia.

O fato é que existe.

Silencioso. Persistente. Guardado.

Há dias em que ela acredita que entende tudo… o que deve preservar, o que não pode atravessar, o que é certo.

Mas saber nunca foi o problema.

O problema é sentir.

É perceber que, mesmo escondido, esse sentimento ainda encontra espaço.

Ainda respira.

E Clara segue, entre o que construiu e o que, por um instante, imaginou construir diferente.

Não existe resposta limpa para isso.

Só esse lugar suspenso entre o que é vivido e o que insiste em permanecer.

E, no fundo, talvez seja essa a parte mais difícil de aceitar: que alguns amores não vêm para acontecer no mundo: vêm para habitar alguém.

Silenciosamente.

Profundamente.

Como tudo aquilo que nunca se explica,

mas nunca vai embora.

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